sexta-feira, 4 de junho de 2010

Prioridades do futebol

Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo foram escolhidas para sediar a Copa do Mundo, em 2014. O cronograma da FIFA previa que as obras, nos estádios brasileiros, fossem iniciadas antes do dia 3 de maio, mas algumas das cidades ainda estão discutindo projetos ou buscando recursos.
Elas deverão estar muito bem preparadas para a complexa operação logística que o certame envolve. Isto significa hospedar 32 equipes e suas comitivas, durante um mês, e criar estrutura para a realização de 64 partidas, que serão transmitidas para o mundo todo.
Adaptar nossos modestos estádios às recomendações técnicas internacionais, visto que nenhum deles cumpre os requisitos básicos, exigirá reformas colossais e até a construção de novas instalações estimadas, inicialmente, em R$ 10 bilhões.
As reformas dos aeroportos, portos, rodovias e hospitais sucateados não podem ficar de fora e vai ser uma tarefa hercúlea dotar a segurança pública de um mega aparato, em meio à nossa mobilidade urbana, que está um caos. Tudo isso demandará obras gigantescas, imprescindíveis para receber 500 mil turistas, 15 mil jornalistas, 15 mil voluntários para tarefas diversas e 300 funcionários e convidados da FIFA.
É bom lembrar que, nas últimas décadas, o país não recebeu nenhuma obra infra-estruturante importante. Elas ficaram empacadas por algum ato de corrupção, falta de recursos ou de planejamento. Essas exigências da FIFA, com referência a obras de infra-estrutura econômica e social, vêm sendo relevadas há décadas. E nós não temos a mínima idéia de quanto isso vai nos custar. Mas, uma coisa é certa: nossa dívida pública vai explodir.
Os argumentos a favor dos gastos públicos com a Copa do Mundo são de que o evento trará empregos, aumentará o fluxo turístico, promoverá a revitalização de áreas urbanas, garantirá investimentos de peso no Brasil, com conseqüente elevação do PIB. Os países que já sediaram o certame refutam essas estatísticas.
O pior de tudo é que, necessariamente, haverá envolvimento de dinheiro público, administrado pelos mesmos vilões de sempre. Então, eu não tenho nenhuma dúvida de que eles vão sangrar os recursos da segurança, saúde, educação, infra-estrutura e controle ambiental para tentar cumprir as exigências da FIFA, e esse assunto ainda vai virar caso de polícia e chacota internacional.
Em minha opinião, o Brasil não está preparado para sediar o evento e nossa prioridade não é o futebol. Eu espero que o Brasil amadureça, crie juízo e aplique nossos parcos recursos em projetos que solucionem as nossas gravíssimas fragilidades sistêmicas, em benefício do futuro de muitos, não para a euforia dos mesmos.
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Martha E. Ferreira é economista e consultora de negócios.

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